Sem vaga em estudo clínico e com tumores no cérebro, a mãe de Max Doppelt dependia de um remédio vendido na China. A viagem custou cerca de US$ 10 mil e inspirou outros pacientes.
No início de 2025, o engenheiro americano Max Doppelt ouviu de um médico, em Nova York, um comentário quase casual: pena que a mãe dele não era chinesa. Se fosse, poderia simplesmente comprar numa farmácia o remédio de que precisava.
A frase virou um plano. Meses depois, Max, de 30 anos, embarcou para Xangai e voltou com 26 caixas de sunvozertinibe na mala. Gastou cerca de US$ 10 mil para tentar dar à mãe mais tempo de vida.
Um câncer raro que chegou ao cérebro
Debbie Doppelt, joalheira de Nova York, recebeu o diagnóstico no fim de 2023, depois de uma tosse leve que não passava. Ela tem uma forma incomum de câncer de pulmão, ligada a uma mutação genética e mais frequente em quem nunca fumou.
Quimioterapia, imunoterapia e cirurgia seguraram a doença por alguns meses. Em dezembro de 2024, porém, os exames mostraram que o câncer tinha se espalhado para o cérebro, com dez pequenos tumores.
Por que as opções nos EUA não serviam
Havia um remédio aprovado nos Estados Unidos para a mutação de Debbie, mas a família temia os efeitos colaterais. Além disso, médicos consultados duvidavam que ele chegasse ao cérebro com eficácia.
A segunda alternativa era um estudo clínico no Memorial Sloan Kettering, um dos principais centros de câncer do país. Em janeiro de 2025, a família soube que uma leve cicatriz no pulmão de Debbie a deixava de fora da pesquisa.
Restava o sunvozertinibe, criado pela farmacêutica chinesa Dizal e aprovado na China em 2023. Nos EUA, ele só estava disponível em testes nos quais metade dos voluntários recebia apenas quimioterapia, justamente o tratamento que já tinha falhado com Debbie.
A viagem a Xangai

Poucas horas depois do comentário do médico, mãe e filho acionaram amigos e parentes. Um deles conseguiu uma pequena quantidade do remédio por meio de um conhecido que vive na China. Alguns meses depois, Max foi pessoalmente buscar mais.
Ele contou que trazer o remédio para casa pareceu a missão da sua vida. Cerca de 19 meses após o início do tratamento, o câncer de Debbie seguia em grande parte controlado, com a ajuda de algumas sessões de radioterapia e ajustes de dose.
Max diz conhecer pelo menos 30 americanos que fizeram o mesmo caminho. Nem todos tiveram o mesmo resultado. Segundo ele, o remédio parece ajudar cerca de metade dos pacientes, e uma mulher de 70 anos que ele orientou viu o câncer avançar após três meses de uso.
O remédio enfim chegou aos Estados Unidos

O FDA, agência que regula medicamentos nos EUA, aprovou o sunvozertinibe de forma acelerada em julho de 2025, mas o produto continuou fora das farmácias americanas por mais de um ano.
A situação mudou em 22 de outubro de 2026, quando a AstraZeneca, que comprou os direitos globais do remédio, anunciou sua venda no país com o nome Zegfrovy. Ele é indicado para adultos com câncer de pulmão avançado com um tipo específico de mutação, depois da quimioterapia.
O Departamento de Saúde americano lembra que comprar remédios no exterior para uso próprio às vezes é permitido. Mesmo assim, o FDA alerta para riscos de segurança e qualidade em tratamentos feitos fora do sistema regulado.
De uma busca pessoal a um projeto para outros pacientes
A experiência mudou também a carreira de Max. Há cerca de um ano, ele deixou o emprego em tecnologia e criou uma empresa que usa inteligência artificial para cruzar o histórico médico de pacientes com estudos clínicos disponíveis. Cerca de 300 pessoas já usaram a ferramenta, sem pagar nada.
Ele sabe que o remédio pode deixar de funcionar um dia, porque esse tipo de câncer costuma encontrar formas de escapar do tratamento. Quando isso acontecer, diz Max, a família vai atrás da próxima opção, esteja ela onde estiver.
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