Encontrado a 600 metros de profundidade na costa da Califórnia, o peixe-barril apareceu apenas 11 vezes em quase 40 anos de mergulhos do instituto MBARI, que pela primeira vez o registrou em 4K.
O robô submarino já voltava para a superfície, no fim de um longo dia de trabalho, quando alguém na sala de controle pediu para parar. Na tela, a cerca de 600 metros de profundidade, flutuava um peixe com a cabeça transparente e dois olhos verdes brilhando lá dentro.
Era um peixe-barril, uma das criaturas mais raras do mar profundo. O encontro rendeu as primeiras imagens em 4K da espécie feitas pelo Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey (MBARI).
Um encontro que quase não aconteceu
A equipe estava a bordo do navio de pesquisa David Packard, a cerca de 90 quilômetros da costa da Califórnia, numa expedição de oito dias dedicada a águas-vivas e outros animais gelatinosos.
Com o trabalho do dia encerrado, os pilotos traziam o robô Doc Ricketts de volta quando a especialista Shannon Johnson avistou o peixe. Cientistas que já estavam no laboratório voltaram correndo, e a tripulação também foi para a sala de controle.
“Ver um peixe-barril é um raro privilégio”, resumiu o cientista sênior Steven Haddock, que liderava a expedição.
Só 11 encontros em quase 40 anos
A raridade explica a comoção. Em quase quatro décadas de exploração, os robôs do MBARI fizeram cerca de 7.000 mergulhos e gravaram mais de 41 mil horas de vídeo. Nesse período, o peixe-barril apareceu apenas 11 vezes.
O encontro anterior tinha ocorrido em 2021. Vale a ressalva: o número se refere aos registros do instituto, e não a todos os avistamentos já feitos no mundo.
Olhos que enxergam através da própria cabeça

O nome científico, Macropinna microstoma, significa “nadadeiras grandes, boca pequena”. O peixe mede cerca de 15 centímetros e vive na chamada zona crepuscular do oceano, onde a luz do Sol chega muito fraca.
Os dois pontos escuros na frente do rosto parecem olhos, mas são órgãos do olfato. Os olhos de verdade são dois tubos verdes que ficam dentro de uma cúpula transparente, voltados para cima. Assim, o peixe enxerga a sombra de presas passando acima dele.
Quando encontra comida, os olhos giram para a frente sob a cúpula, sem perder o alvo de vista. Essa proteção também ajuda o peixe a roubar pequenos crustáceos presos nos tentáculos urticantes dos sifonóforos, parentes das águas-vivas.
A espécie foi descrita em 1939, mas as redes de pesca destruíam a estrutura transparente. Só nos anos 2000, com observações do próprio MBARI em ambiente natural, os cientistas entenderam como a cabeça do animal funciona.
O que as novas imagens podem revelar

A equipe acompanhou o peixe por cerca de 20 minutos e testou diferentes tipos de iluminação para destacar a cabeça transparente. O piloto conseguiu aproximar o robô o bastante para gravar imagens em 3D, que devem ser usadas em projetos educativos.
O animal não foi coletado. As imagens em alta resolução, porém, devem ajudar a equipe, que estuda como os animais marinhos lidam com a luz, a entender melhor como funciona a visão na escuridão do mar profundo.
Segundo Haddock, muitos animais dessa região sobrevivem observando sinais sutis, como uma sombra que passa. Isso cria uma corrida evolutiva entre quem tenta se esconder com luz própria e quem desenvolve olhos cada vez mais sensíveis.
Um convite para cuidar do oceano
Para o cientista, encontros como esse despertam fascínio pelo fundo do mar. A esperança é que essa curiosidade se transforme em cuidado com o maior espaço habitável do planeta, do qual ainda conhecemos tão pouco.
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