ANIMAIS

Nova cobra-cega do Rio se chama Maria e homenageia mulher escravizada

Pesquisadores descreveram a Siphonops maria, uma cobra-cega da Mata Atlântica fluminense batizada em homenagem a uma mulher escravizada que replantou a Floresta da Tijuca.

Por Gabriel JesusPublicado em 28 de outubro de 2026, 18:55Tempo de leitura: 4 min

Maria é o nome feminino mais comum do Brasil, e agora também dá nome a um animal. Pesquisadores descreveram uma nova espécie de cobra-cega da Mata Atlântica do Rio de Janeiro, batizada de Siphonops maria. A escolha homenageia uma mulher escravizada que ajudou a replantar a Floresta da Tijuca no século 19 e, ao mesmo tempo, as milhões de brasileiras que carregam o mesmo nome.

Uma “cobra” que não é cobra

Apesar do nome popular, as cecílias, ou cobras-cegas, são anfíbios. Vivem quase sempre debaixo da terra, onde cavam túneis com a cabeça e fazem câmaras para depositar os ovos. Os olhos são reduzidos, e daí vem o nome, do latim caecus, que significa “cego”. Mesmo assim, elas percebem o ambiente por órgãos sensoriais na cabeça. Em fotos podem lembrar minhocas, mas são vertebrados, têm esqueleto e são bem maiores.

Os pesquisadores sugerem o nome popular cecília-maria.

Como a espécie foi identificada

O exemplar de referência, chamado holótipo, foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, e guardado no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. À primeira vista, parecia pertencer a outra espécie, a Siphonops hardyi. Ao examiná-lo, o pesquisador Adriano Maciel notou que o número de anéis no corpo e a dentição eram diferentes. O sequenciamento de genes confirmou que era uma linhagem distinta.

Para ter certeza, Maciel comparou o material com animais de museus de Paris e do Rio de Janeiro, em visitas feitas em 2018 e 2022. Entre eles, encontrou um exemplar coletado em 1902 na Serra dos Órgãos, guardado como S. hardyi, mas com as características da nova espécie. A tomografia computadorizada de alta resolução ajudou a enxergar detalhes do crânio que a separam das espécies parecidas.

Quem foi a Maria do nome

O nome lembra uma Maria específica, parte de um grupo de 11 pessoas escravizadas que, entre 1861 e 1874, plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca. A área passou a fazer parte do Parque Nacional da Tijuca, descrito pela Agência FAPESP como a maior floresta urbana replantada do mundo.

A homenagem também alcança as mulheres do país. Maciel lembrou que há mais de 12 milhões de Marias no Brasil e contou que a mãe e quase todas as tias dele têm esse nome. Os autores também queriam tornar mais conhecido um animal que quase ninguém vê. O coautor Luís Felipe Toledo, da Unicamp, disse ter visto esse tipo de animal apenas uma vez em campo.

O que mais o estudo mudou

O trabalho foi além de dar nome a uma espécie. Os pesquisadores concluíram que o gênero Luetkenotyphlus não se distingue do Siphonops. Por isso, as três espécies que estavam nele passam a se chamar Siphonops brasiliensis, S. fredi e S. insulanus.

Duas outras linhagens parecidas com a S. hardyi também podem ser espécies novas: uma em Ubatuba (SP) e outra em Castelo e Domingos Martins (ES). Ainda falta material para confirmar. Toledo contou que pelo menos dois exemplares do século 19, coletados no Brasil, estão no Museu de História Natural de Londres, e que o museu não autorizou a retirada de um pequeno pedaço de tecido para sequenciar o DNA. Segundo Maciel, a solução é buscar novos exemplares na Mata Atlântica, o que pode levar alguns anos.

Onde ela vive e por que isso importa

A cecília-maria foi registrada em fragmentos de Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro, alguns perto de áreas urbanas e a maioria dentro de unidades de conservação. Ao que tudo indica, a espécie só existe no estado.

A história mostra que a floresta ainda guarda animais pouco conhecidos, até mesmo entre especialistas. Mostra também o valor das coleções de museus: um exemplar guardado desde 1902 ajudou a resolver o enigma.

O estudo foi publicado no Zoological Journal of the Linnean Society e divulgado pela Agência FAPESP em 6 de outubro.

FONTES: https://agencia.fapesp.br/batizada-de-maria-nova-especie-de-anfibio-homenageia-o-nome-mais-popular-do-brasil/59338

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