ENTRETENIMENTO

Do primeiro beijo na TV ao streaming: 75 anos de novela no Brasil

Da estreia ao vivo na TV Tupi, em 1951, à disputa com o streaming, o gênero que para o país todas as noites chega aos 75 anos com uma trajetória marcada por censura, exportação e reinvenção.

Por Gabriel JesusPublicado em 30 de outubro de 2026, 00:11Tempo de leitura: 4 min
IMAGEM ILUSTRATIVA - IA
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Em 21 de dezembro de 1951, a TV Tupi de São Paulo pôs no ar “Sua Vida Me Pertence”, a primeira telenovela brasileira. Era transmitida ao vivo, só duas vezes por semana, para um público pequeno. Na época, ter um televisor em casa era luxo.

Em dezembro de 2026, o gênero completa 75 anos. Nesse tempo, a novela passou de experimento de estúdio a hábito nacional, enfrentou a censura da ditadura, foi vendida para mais de uma centena de países e hoje disputa espaço com o celular.

Ao vivo, duas vezes por semana: o começo na TV Tupi

“Sua Vida Me Pertence” foi escrita e dirigida por Walter Forster, que também atuava como protagonista. No elenco estavam Vida Alves e Lima Duarte, que ainda daria muito o que falar na televisão.

A novela entrou para a história pelo primeiro beijo da TV brasileira, entre Forster e Vida Alves. Não foi uma decisão simples. O diretor-geral da emissora resistiu, a diretoria inteira foi consultada e a atriz conversou antes com o marido. Só depois o beijo foi liberado.

Um engano de telefone criou a novela diária

Em julho de 1963, a TV Excelsior estreou “2-5499 Ocupado”. Na trama, uma presidiária que trabalhava como telefonista conhecia um homem por causa de uma ligação errada. O casal era vivido por Tarcísio Meira e Glória Menezes, que também formavam um casal fora das telas.

A história vinha de um original argentino. No começo, ia ao ar às segundas, quartas e sextas. Em setembro daquele ano, a Excelsior do Rio arriscou exibi-la todos os dias, e o modelo pegou. Anos depois, o próprio Tarcísio admitiu que a novela era chata.

O primeiro grande fenômeno do formato diário veio em seguida, com “O Direito de Nascer”, na TV Tupi, entre 1964 e 1965. Era a adaptação de um dramalhão do rádio cubano e transformou Mamãe Dolores em personagem popular em todo o país.

Beto Rockfeller tirou a novela do dramalhão importado

Luiz Gustavo com Débora Duarte
Luiz Gustavo com Débora Duarte

Até o fim dos anos 1960, boa parte das tramas se passava em lugares e épocas distantes do Brasil. Isso mudou em 4 de novembro de 1968, quando a Tupi estreou “Beto Rockfeller”, escrita por Bráulio Pedroso.

O protagonista, vivido por Luiz Gustavo, era um vendedor de sapatos de classe média baixa que se passava por milionário na alta sociedade paulistana. Os personagens falavam com gírias, vestiam roupas comuns e apareciam nas ruas de São Paulo. Na época, gravar externas ainda era raro.

Pesquisadores apontam a novela como o modelo que a TV Globo seguiria nas décadas seguintes. Dos 13 meses de exibição, porém, sobraram só sete capítulos no acervo da Cinemateca Brasileira.

Cores, censura e a novela como produto de exportação

Em 1973, “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, tornou-se a primeira novela em cores do país. A trama se passava em Sucupira, cidade fictícia do litoral baiano governada por Odorico Paraguaçu. A crítica ao poder incomodou: a censura proibiu que a palavra “coronel” fosse dita.

O caso mais duro viria dois anos depois. Em 27 de agosto de 1975, dia da estreia de “Roque Santeiro”, também de Dias Gomes, a novela foi vetada pela censura com cerca de 30 capítulos já gravados.

A história só chegou à TV em junho de 1985, no ano em que os militares deixaram o poder, com Regina Duarte, José Wilker e Lima Duarte. Escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, teve 209 capítulos e é considerada a novela de maior audiência da história da televisão brasileira.

No meio desse caminho, a novela virou produto de exportação. “Escrava Isaura”, de 1976, levou Lucélia Santos, então com 19 anos, a mais de cem países. Na China, a atriz recebeu em 1985 o prêmio Águia de Ouro. O recorde de vendas da Globo hoje é de “Avenida Brasil”, de 2012, licenciada para 148 países.

Do Pantanal ao celular: a disputa por um público novo

Nem sempre a Globo esteve sozinha no topo. Em 1990, “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, exibida pela extinta TV Manchete, ameaçou a liderança da emissora com paisagens de Mato Grosso do Sul que pouca gente conhecia. Em 2022, a própria Globo levou ao ar uma nova versão, escrita pelo neto do autor, Bruno Luperi.

A concorrência agora vem também do streaming. Em janeiro de 2025, a Max lançou “Beleza Fatal”, sua primeira novela brasileira original. Na primeira semana, foi o título mais visto da plataforma no Brasil e liderou em 15 países. Os capítulos curtos e cheios de reviravoltas mostraram que o folhetim também cabe na tela do celular.

Enquanto isso, a TV aberta olha para trás. Desde 5 de outubro de 2026, “Roque Santeiro” voltou às tardes da Globo, 51 anos depois de ter sido barrada na noite em que deveria estrear.

FONTES: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/2022/01/18/nada-sera-como-antes-transformacoes-nas-novelas.html

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