Quem joga uma bolinha vermelha no gramado e vê o cachorro correr para o lado errado não está diante de um cão distraído. Está diante de um olho que funciona de outro jeito. Os cães enxergam cores, ao contrário do mito de que veem tudo em preto e branco, mas uma paleta bem menor que a nossa.
Por outro lado, eles enxergam quase em volta da cabeça, percebem movimentos a distância e se viram melhor no escuro. Pesquisas de oftalmologia veterinária e estudos recentes sobre o cérebro canino ajudam a montar essa imagem.
Azul e amarelo: o arco-íris pela metade
A visão de cores depende de células da retina chamadas cones. Os humanos têm três tipos, o que permite combinar vermelho, verde e azul. Os cães têm só dois: um mais sensível ao azul-violeta e outro ao amarelo-esverdeado.
O primeiro a demonstrar isso foi o oftalmologista americano Jay Neitz, em 1989, em testes com cães treinados. O resultado: eles distinguem bem azuis e amarelos, mas confundem vermelhos e verdes, como uma pessoa com daltonismo do tipo mais comum.
Na prática, a bolinha vermelha no gramado aparece como um tom acinzentado ou amarronzado sobre um fundo parecido. Uma bolinha azul ou amarela, no mesmo lugar, se destaca muito mais.
Menos nitidez do que a gente imagina
Os cães também enxergam detalhes com menos precisão. A acuidade visual deles é estimada em cerca de 20/75. Em medidas brasileiras, isso quer dizer que um detalhe que uma pessoa com visão normal distingue a 23 metros o cão só consegue ver com a mesma clareza a cerca de 6 metros.
O motivo está na retina: os cães têm menos cones, e eles ficam menos concentrados. Os humanos têm uma pequena região central, a fóvea, cheia dessas células, especializada em detalhes. Por isso o dono parado do outro lado da praça pode ser só uma silhueta até começar a andar ou chamar.
Um campo de visão quase panorâmico

Os olhos dos cães ficam mais para os lados da cabeça. O resultado é um campo de visão estimado em 240 graus, contra cerca de 180 nos humanos. É como enxergar boa parte do que acontece ao lado sem virar o pescoço.
Esse ganho tem um custo. A área em que os dois olhos enxergam ao mesmo tempo, essencial para calcular distâncias de perto, fica entre 30 e 60 graus no cão, contra cerca de 140 no ser humano. E tudo varia com a raça: cães de focinho curto, como o pug, têm os olhos mais à frente. Já os de focinho longo, como o galgo, enxergam um campo mais amplo.
Onde o cão realmente se destaca é no movimento. Segundo o oftalmologista veterinário Paul Miller, da Universidade de Wisconsin, a visão periférica dos cães funciona como um detector de “algo se mexendo”. Por isso muitos ignoram um objeto parado de lado, mas saem em disparada assim que ele se move.
No escuro, eles levam vantagem
Se perdem nas cores e na nitidez, os cães ganham quando a luz diminui. A retina deles tem uma proporção bem maior de bastonetes, as células especializadas em pouca luz, e as pupilas abrem mais que as nossas.
Eles contam ainda com o tapetum lucidum, uma camada atrás da retina que funciona como um espelho e devolve a luz para as células uma segunda vez. É ela que faz os olhos do cachorro brilharem em verde ou amarelo em fotos com flash ou sob o farol do carro. Alguns cães, principalmente os de olhos azuis, não têm essa camada e aparecem com olhos vermelhos nas fotos.
O que a TV e o faro revelam

Os olhos dos cães também atualizam a imagem mais rápido. Eles percebem uma luz piscando como piscante até 70 a 80 vezes por segundo, enquanto para os humanos ela vira imagem contínua antes disso. Nas TVs antigas, que atualizavam a imagem 60 vezes por segundo, os cães provavelmente viam uma tela tremida. Nos televisores modernos, com taxas maiores, a diferença tende a ser menor.
E eles assistem. Um estudo da Universidade de Wisconsin-Madison, com cerca de 1.600 famílias, mostrou que os cães prestam mais atenção em vídeos de outros animais, principalmente cães, do que em pessoas. Os pesquisadores querem usar esse interesse para criar testes de visão para cães idosos.
Para completar o quadro, um estudo da Universidade Cornell, publicado em 2022, encontrou no cérebro canino ligações entre a área do olfato e a área da visão nunca vistas em outra espécie. Segundo a pesquisadora Pip Johnson, isso ajuda a explicar por que cães que ficam cegos continuam brincando e se orientando tão bem.
No mundo do seu cachorro, o tapete pode não ter a cor que você escolheu e o dono parado pode ser só uma forma borrada. Mas o cheiro que vem dele chega antes, e é muito provável que seja por aí que o cão realmente o reconhece.
FONTES: https://www.scientificamerican.com/article/what-colors-do-dogs-see/
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