Enquanto o hemisfério Norte entra no outono, bandos de maçaricos e batuíras deixam o Ártico rumo ao sul. Muitos pousam nas praias e lagoas do Brasil entre setembro e novembro, depois de atravessar o continente sem mapa, sem GPS e, em alguns casos, sem nunca ter feito a viagem antes.
A migração das aves é uma das jornadas mais impressionantes da natureza. A ciência já sabe bastante sobre por que elas partem e como se orientam, mas uma parte do mistério ainda está sendo desvendada dentro dos olhos desses animais.
Por que tantas aves enfrentam viagens tão longas
A resposta curta é comida. No verão do Ártico, os dias são longos e há fartura de insetos, o ambiente ideal para criar filhotes. Quando o frio chega, a comida some, e as aves seguem para regiões onde ainda é verão ou o clima é mais ameno.
A partida não depende de calendário. A mudança no tamanho dos dias altera os hormônios das aves, que passam a comer muito mais e acumular gordura, o combustível da viagem. Em cativeiro, aves migratórias ficam agitadas na época de partir, um comportamento que os cientistas chamam de inquietação migratória.
Sol, estrelas e uma bússola no olho
Para não se perder, as aves combinam várias pistas. De dia, usam a posição do Sol, compensando o movimento dele ao longo das horas com o relógio biológico. À noite, muitas espécies se orientam pelas estrelas, que aprendem a reconhecer ainda jovens observando o céu girar em torno do polo.
A pista mais intrigante é o campo magnético da Terra. Em 2021, pesquisadores publicaram na revista Nature que uma proteína chamada criptocromo 4, presente nos olhos do pisco-de-peito-ruivo, uma ave europeia que migra à noite, reage a campos magnéticos. A versão dessa proteína nessas aves é mais sensível que a de galinhas e pombos, que não migram.
A hipótese é que a ave literalmente “veja” o campo magnético, como uma camada sobre a paisagem. Os próprios autores ressaltam que falta confirmar o mecanismo dentro do olho vivo. Além disso, montanhas, rios, litorais e até cheiros servem de referência quando a ave chega perto do destino.
Recordistas que desafiam o corpo

O recorde de voo sem pouso pertence a um maçarico-de-bico-virado de apenas cinco meses. Em outubro de 2022, a ave, identificada só pelo número da anilha, saiu do Alasca e voou 13.560 km até a Tasmânia, na Austrália, em 11 dias seguidos, dia e noite. É mais que a distância entre São Paulo e Tóquio em linha reta.
Para aguentar, essas aves praticamente se transformam antes de partir: engordam muito e reduzem órgãos que não usarão no voo, como parte do sistema digestivo. Segundo o especialista australiano Eric Woehler, o jovem recordista deve ter chegado com metade ou menos do peso com que saiu.
Outra campeã é a andorinha-do-ártico, que vai do Ártico à Antártica e volta todos os anos. Ela percorre distâncias ainda maiores ao longo do ano, mas, diferente do maçarico, pousa para descansar e se alimentar.
O Brasil é destino de quem foge do inverno do Norte
Segundo o primeiro levantamento nacional, feito pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), do ICMBio, cerca de 10% das espécies de aves encontradas no Brasil são migratórias. Algumas vêm do hemisfério Norte. Outras saem do sul da América do Sul ou se deslocam dentro do próprio país.
Duas áreas brasileiras fazem parte de uma rede internacional de reservas para aves limícolas, as que vivem na beira d’água: o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, e as Reentrâncias Maranhenses, no Maranhão. O Pantanal e praias de vários estados também recebem visitantes.
Um dos mais famosos é o maçarico-de-papo-vermelho, ave de cerca de 24 centímetros que sai do Ártico e chega ao sul da América do Sul. No caminho, cerca de 80% das aves param na Baía de Delaware, nos Estados Unidos, para comer ovos de caranguejo-ferradura.
Uma viagem cada vez mais arriscada

Essas rotas dependem de uma corrente de lugares seguros para descanso e alimentação. Quando um elo se rompe, a viagem inteira fica comprometida. A pesca excessiva do caranguejo-ferradura, por exemplo, reduziu o alimento do maçarico-de-papo-vermelho na parada em Delaware.
O cenário global preocupa. Segundo o primeiro relatório da ONU sobre espécies migratórias, publicado em 2024, 44% das espécies acompanhadas pela convenção internacional estão em declínio. A perda de habitat e a caça ou captura excessiva são as maiores ameaças, somadas às mudanças climáticas e à poluição, inclusive a luminosa, que desorienta aves que voam à noite.
No Brasil, censos na Lagoa do Peixe registraram queda de até 80% em populações de maçaricos e batuíras nas últimas décadas. Para quem caminha pela praia, a ajuda é simples: evitar espantar os bandos que descansam na areia. Cada voo de fuga gasta a energia que a ave precisa para voltar ao Ártico na próxima primavera de lá.
FONTES: https://earthsky.org/earth/longest-nonstop-bird-flight-world-record-bar-tailed-godwit-2022/
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