TECNOLOGIA

Como funciona o reconhecimento facial e quais são os riscos

A tecnologia que desbloqueia celulares e procura foragidos em multidões transforma traços do rosto em números, e acertos e erros dependem do sistema, da imagem e de regras que o Brasil ainda discute.

Por Gabriel JesusPublicado em 30 de outubro de 2026, 13:02Tempo de leitura: 5 min
IMAGEM ILUSTRATIVA - IA
IMAGEM ILUSTRATIVA - IA

O reconhecimento facial está no celular que abre com um olhar, no aplicativo do banco que pede uma selfie, na catraca do condomínio e nas câmeras espalhadas por ruas e estádios. Na Bahia, segundo a Secretaria da Segurança Pública, o sistema já ajudou em mais de 6,1 mil prisões desde 2019.

A mesma tecnologia, porém, já levou pessoas inocentes a serem abordadas pela polícia diante de multidões. Entender como ela funciona ajuda a ver onde estão os acertos, onde moram os erros e por que o tema chegou ao Congresso.

Do rosto a um código de números

O processo começa com a detecção: o software localiza, na imagem, onde existe um rosto. Depois, ajusta a posição e o tamanho dele, como quem endireita uma foto torta.

Em seguida, um modelo de inteligência artificial mede características do rosto, como a distância entre os olhos e o formato do queixo, e transforma tudo em uma sequência de números. Essa espécie de “assinatura” do rosto é o que fica guardado no sistema, e não necessariamente a foto.

Por fim, o sistema compara essa assinatura com outras e calcula um grau de semelhança. Se o resultado passa de um limite definido por quem opera o sistema, ele aponta uma correspondência. Esse limite é decisivo: se for baixo demais, aumentam os alarmes falsos. Se for alto demais, pessoas procuradas passam despercebidas.

Verificar é diferente de procurar

Há dois usos bem diferentes. No primeiro, chamado de verificação, o sistema confere se você é quem diz ser, comparando seu rosto com uma única imagem cadastrada. É o que acontece ao desbloquear o celular ou confirmar uma transação no app do banco.

No segundo, a identificação, o sistema compara um rosto com milhares ou milhões de imagens de um banco de dados, em busca de alguém. É o caso das câmeras que procuram pessoas com mandado de prisão em aberto.

Quanto maior o banco de dados, maior a chance de surgir alguém parecido. Por isso o erro na identificação tende a ter consequências mais sérias: em vez de o celular não abrir, uma pessoa pode ser confundida com outra.

Câmeras nas ruas, nos estádios e no Carnaval

IMAGEM ILUSTRATIVA - IA
IMAGEM ILUSTRATIVA – IA

No Brasil, o uso pela segurança pública cresceu rápido. A Bahia começou em 2019 e hoje usa o sistema em festas como o Carnaval e o São João. No Carnaval de 2026, foram 58 foragidos presos com ajuda das câmeras, segundo a SSP-BA. Em São Paulo, o programa Smart Sampa integra cerca de 40 mil câmeras públicas e privadas.

Quem defende a tecnologia argumenta que ela localiza pessoas com mandado de prisão que, de outro modo, continuariam soltas, e que a confirmação final é feita por policiais, não pela máquina. Um estudo acadêmico publicado em 2023 não encontrou, até aquela data, prisões motivadas por erro do sistema na Bahia.

O erro que pesa mais: apontar a pessoa errada

Em 2019, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) testou 189 algoritmos de 99 empresas e instituições. A maioria apresentou diferenças de desempenho entre grupos: em alguns sistemas, o alarme falso foi de 10 a 100 vezes mais frequente com rostos negros e asiáticos do que com brancos. Na busca em bancos de dados, as mulheres negras tiveram as maiores taxas de falso positivo.

O mesmo estudo mostrou que os algoritmos mais precisos erram muito menos, e que o resultado depende do sistema escolhido. Iluminação ruim, ângulo, chapéu e fotos antigas no banco de dados também pesam.

No Brasil, os erros já têm rosto. Em 2023, uma mulher foi detida por engano numa festa em Aracaju. Em abril de 2024, um personal trainer de 23 anos foi retirado da arquibancada na final do Campeonato Sergipano, e o governo de Sergipe suspendeu o uso da ferramenta. Em São Paulo, um morador de Heliópolis foi abordado quatro vezes em sete meses após alertas do Smart Sampa. A prefeitura afirma que o programa não falhou.

Críticos, como defensores públicos e entidades de direitos humanos, apontam falta de transparência, de auditoria independente e de padrões uniformes para o uso policial.

Dado sensível e leis ainda em debate

IMAGEM ILUSTRATIVA - IA
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Pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), dados biométricos, como a assinatura do rosto, são sensíveis e exigem proteção reforçada. Em agosto de 2026, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) mandou suspender o reconhecimento facial em escolas estaduais do Paraná, por considerar que o uso precisava ser justificado como necessário e proporcional.

No Congresso, a Câmara aprovou em 12 de agosto de 2026 o PL 1828/2023, que autoriza câmeras com reconhecimento facial em estações, ônibus, metrô, vias e prédios públicos, com regras de transparência e proteção de dados. O texto está agora no Senado. O marco geral da inteligência artificial, que também trata da biometria na segurança pública, foi aprovado no Senado em 2024 e segue em análise na Câmara.

Enquanto as regras não se fecham, o cidadão pode perguntar a empresas e condomínios por que a biometria é exigida, onde os dados ficam guardados, por quanto tempo e se há outra forma de acesso.

A decisão sobre até onde ir com câmeras que reconhecem rostos vai sair do Senado e da Câmara nos próximos meses. Até lá, cada alerta continua dependendo de um policial que olha para a tela e decide se o rosto apontado é mesmo o da pessoa procurada.

FONTES: https://www.nist.gov/news-events/news/2019/12/nist-study-evaluates-effects-race-age-sex-face-recognition-software


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