CIÊNCIA

Canudos de papel são piores que os de plástico? Entenda o novo estudo

Por Gabriel JesusPublicado em 28 de outubro de 2026, 00:20Tempo de leitura: 5 min

Pesquisa encomendada pelo governo sul-coreano analisou quatro tipos de canudos e descobriu que o plástico convencional teve o menor impacto em 10 dos 16 indicadores avaliados.

Durante anos, trocar o canudo de plástico pelo de papel se tornou um símbolo de preocupação com o meio ambiente. A mudança ganhou espaço em cafeterias, restaurantes e redes de alimentação, acompanhada da ideia de que o papel seria uma alternativa mais sustentável.

Mas uma pesquisa realizada na Coreia do Sul trouxe resultados que desafiam essa percepção. Ao comparar diferentes materiais, os pesquisadores descobriram que os canudos convencionais de plástico apresentaram menor impacto ambiental em boa parte dos indicadores analisados.

A descoberta não significa que o plástico deixou de ser um problema ambiental. Ela mostra que a sustentabilidade de um produto pode ser mais complexa do que sua aparência ou o material utilizado em sua fabricação.

Plástico teve melhor desempenho em 10 de 16 categorias

O levantamento foi encomendado pelo Ministério do Clima, Energia e Meio Ambiente da Coreia do Sul e conduzido pela Sociedade Coreana de Avaliação do Ciclo de Vida, entre maio de 2025 e abril de 2026.

Foram comparados quatro tipos de canudos descartáveis: plástico convencional, papel, plástico biodegradável e polietileno de origem biológica, conhecido como bio-PE.

Os pesquisadores avaliaram 16 categorias de impacto ambiental, considerando etapas que vão da obtenção das matérias-primas até o descarte dos produtos.

O resultado chamou a atenção: os canudos convencionais de plástico apresentaram o menor impacto em 10 categorias, incluindo mudanças climáticas, acidificação, formação de partículas finas e toxicidade humana.

Já os canudos de papel tiveram o maior impacto entre os materiais analisados em três categorias. Os de bio-PE registraram os piores resultados em dez indicadores.

Por que o canudo de papel pode ter impacto maior?

Um dos pontos centrais da pesquisa é que um produto não se torna automaticamente mais sustentável apenas por utilizar uma matéria-prima de origem vegetal.

A fabricação, o processamento, o transporte e o descarte também consomem recursos e podem gerar emissões.

Na categoria de acidificação, relacionada à liberação de substâncias que contribuem para a acidificação de ambientes naturais, os canudos de papel apresentaram impacto aproximadamente 2,04 vezes maior que os convencionais de plástico.

Outra diferença apareceu no indicador de potencial de efeitos cancerígenos à saúde humana ao longo do ciclo de vida. Nesse modelo, o resultado dos canudos de papel foi 6,33 vezes superior ao dos canudos plásticos.

Esse número exige cuidado na interpretação: ele não significa que beber com um canudo de papel aumenta em 6,33 vezes o risco de desenvolver câncer. Trata-se de um indicador ambiental calculado a partir de possíveis emissões e exposições associadas à produção e ao descarte.

O problema da reciclagem também entrou na pesquisa

A avaliação considerou as condições de descarte observadas na Coreia do Sul. No cenário principal, 73,6% dos canudos descartados foram considerados destinados à incineração e 26,4% a aterros.

Os pesquisadores também identificaram dificuldades práticas para reciclar canudos de diferentes materiais.

Por serem pequenos, esses produtos frequentemente não são separados adequadamente nos centros de triagem. No caso dos canudos de papel, revestimentos e adesivos podem tornar o processo ainda mais complicado.

Isso significa que um produto anunciado como reciclável nem sempre será efetivamente reciclado depois de utilizado.

O estudo também analisou cenários alternativos de destinação dos resíduos. Mesmo nessas simulações, os canudos convencionais de plástico continuaram apresentando o menor impacto em diversas categorias.

Isso significa que os canudos de plástico são melhores para o planeta?

Não necessariamente.

A pesquisa avaliou indicadores específicos de impacto ambiental, mas seus resultados não devem ser interpretados como uma autorização para aumentar o consumo de plástico descartável.

O plástico convencional continua associado a problemas importantes, como a persistência de resíduos no ambiente, a poluição de rios e oceanos e os riscos à vida silvestre quando o descarte é inadequado.

Além disso, resultados de avaliações de ciclo de vida podem variar conforme os processos de fabricação, as fontes de energia, os materiais utilizados e a infraestrutura de coleta e tratamento de resíduos.

O próprio levantamento mostrou que nenhum dos quatro tipos de canudo teve o melhor desempenho em todas as 16 categorias.

Por isso, a principal conclusão não é simplesmente substituir o papel pelo plástico, mas reconhecer que a troca de material não resolve, sozinha, os impactos dos produtos descartáveis.

A solução pode estar em usar menos canudos

Diante dos resultados, os pesquisadores recomendaram uma mudança de abordagem: em vez de oferecer automaticamente canudos de qualquer material, estabelecimentos poderiam disponibilizá-los apenas quando os consumidores solicitassem.

A proposta busca reduzir o consumo desnecessário de produtos de uso único, independentemente da matéria-prima.

A pesquisa também reacende uma discussão importante sobre políticas ambientais. Uma alternativa considerada ecológica precisa ser analisada ao longo de todo o seu ciclo de vida, e não apenas pela impressão de que é mais natural ou biodegradável.

No fim, o estudo sul-coreano deixa uma reflexão: para diminuir o impacto ambiental, talvez a pergunta mais importante não seja qual canudo escolher, mas se realmente precisamos utilizar um canudo descartável em cada bebida.

FONTES: https://www.chosun.com/english/national-en/2026/10/09/QRK5RYETD5BZZIL6KURBHWWTMY/?utm_source=chatgpt.com