Em uma casa de repouso na Holanda, universitários encontraram uma maneira diferente de economizar com moradia: viver gratuitamente no mesmo prédio que pessoas idosas. Em troca, assumem um compromisso que não envolve pagar aluguel, mas dedicar parte do tempo à convivência com os moradores.
A iniciativa acontece na Humanitas, localizada em Deventer, e estabelece uma condição simples: os estudantes devem reservar pelo menos 30 horas por mês para conversar, participar de atividades e fazer companhia aos idosos. O projeto ganhou repercussão internacional em 2015 e se tornou um exemplo de convivência entre gerações.
Uma solução para duas necessidades diferentes
A ideia surgiu em um momento em que a instituição procurava maneiras de tornar o ambiente mais acolhedor e aproveitar apartamentos disponíveis.
Ao mesmo tempo, universitários da região enfrentavam dificuldades para encontrar moradias acessíveis e adequadas à rotina de estudos.
Foi nesse cenário que a Humanitas passou a receber jovens interessados em viver no local.
Em vez de cobrar aluguel, a instituição propôs uma troca: os estudantes poderiam ocupar os apartamentos gratuitamente, desde que dedicassem parte do mês à convivência com os moradores idosos.
A proposta não era transformar universitários em cuidadores profissionais. O objetivo era aproximar pessoas de diferentes idades e estimular relações que normalmente não aconteceriam dentro de uma casa de repouso.
Como funcionam as 30 horas mensais de companhia

O compromisso dos estudantes é dedicar pelo menos 30 horas por mês a atividades sociais com os idosos.
Na prática, isso pode significar conversar durante uma tarde, compartilhar refeições, participar de comemorações ou ajudar alguém a utilizar um computador.
Em entrevistas divulgadas em 2015, um dos universitários participantes, Jurrien Mentink, contou que ensinava moradores a usar recursos digitais e também cozinhava e passava tempo com seus vizinhos.
Outros relatos descrevem atividades como jogos, passeios e pequenas tarefas cotidianas.
A instituição considera os estudantes uma espécie de bons vizinhos. Eles continuam tendo sua própria rotina, frequentam a universidade e mantêm sua independência, mas também participam da vida comunitária.
O principal compromisso é respeitar os demais moradores e contribuir para um ambiente agradável.
O que os idosos ganham com a presença dos jovens
Para quem vive em uma instituição de longa permanência, a convivência diária pode fazer diferença na maneira como o tempo é vivido.
A presença dos universitários acrescenta novas conversas, assuntos e atividades à rotina.
Os jovens compartilham experiências da faculdade, novidades tecnológicas e acontecimentos do mundo fora da instituição. Os idosos, por sua vez, têm histórias, conhecimentos e experiências acumuladas ao longo de décadas.
Essa troca permite que pessoas de gerações diferentes se conheçam para além dos estereótipos associados à idade.
Em entrevista à rádio pública WBUR, em 2015, a então diretora Gea Sijpkes explicou que desejava tornar a Humanitas um lugar especialmente acolhedor.
A proposta era que os estudantes não estivessem ali apenas para cumprir horas de voluntariado, mas para fazer parte da comunidade.
Embora a convivência possa ajudar a reduzir sentimentos de isolamento, não se deve presumir que o programa elimine a solidão de todos os moradores.
Os universitários também aprendem com a experiência

A vantagem financeira é uma das características mais evidentes do projeto.
Ao não precisar pagar aluguel, o estudante pode reduzir uma despesa importante durante a formação universitária.
Mas os relatos de participantes mostram que a experiência também envolve aprendizados que vão além da economia.
Morar ao lado de pessoas idosas oferece oportunidades para conhecer diferentes trajetórias de vida, ouvir histórias e desenvolver relações de respeito e amizade.
Em uma reportagem de 2015, Mentink destacou que conviver individualmente com os moradores ajudava a enxergá-los como pessoas com experiências próprias, e não simplesmente como integrantes de uma faixa etária.
A convivência também desafia a ideia de que jovens e idosos possuem interesses tão diferentes que não conseguem compartilhar o mesmo espaço.
Na Humanitas, a proposta é justamente demonstrar que essas diferenças podem enriquecer a vida cotidiana.
Um projeto antigo que continua inspirando iniciativas
A experiência da Humanitas começou por volta de 2012 e ganhou destaque internacional nos anos seguintes.
Em 2015, reportagens mostravam seis universitários vivendo entre aproximadamente 160 moradores idosos. Esses números retratam aquele período e não devem ser interpretados automaticamente como a ocupação atual.
O modelo também foi apresentado por organizações dedicadas ao envelhecimento e à inovação social como exemplo de moradia intergeracional.
Em publicações posteriores, a iniciativa continuou sendo mencionada como referência para projetos que buscam aproximar pessoas de diferentes gerações.
Seu diferencial está na simplicidade: aproveitar espaços residenciais para criar oportunidades de convivência, sem transformar a presença dos estudantes em substituição aos profissionais responsáveis pelos cuidados.
Quando a convivência se torna parte da solução
O projeto da Humanitas chama atenção porque conecta duas necessidades que, à primeira vista, parecem não ter relação.
De um lado, jovens procuram condições mais acessíveis para estudar e conquistar independência. Do outro, pessoas idosas podem se beneficiar de mais oportunidades de interação e companhia.
A iniciativa mostra que uma solução habitacional também pode criar vínculos sociais e experiências de aprendizado.
Mais do que oferecer quartos gratuitos, a proposta procura transformar a convivência entre gerações em parte da rotina.
E é justamente essa troca que torna a história especial: os estudantes recebem um lugar para morar, enquanto os idosos encontram novas oportunidades de conversar, compartilhar experiências e construir amizades.